A doença como metáfora

“Os corpos se curam a si mesmos; nós podemos apenas ajudá-los.” Osho

 

Convido vocês a refletirem sobre a atitude que têm frente a si mesmos quando se percebem doentes.

Neste post, baseado em documentários como “O Médico Indiano” e “Heal: O poder da mente” e em algumas leituras, convido-os a repensar de modo científico e espiritual sua relação com as doenças, bem como a reconhecer como pensamentos, crenças e emoções têm um enorme impacto em nossa saúde e capacidade de cura.

 

Doença como enclausuramento e repetição

“É justamente porque temos dificuldade de imaginar que fenômenos imateriais como as percepções, a agentividade* e as emoções possam resultar de processos físicos que se postulou o dualismo ontológico – isto é, a separação clara entre mente e matéria – ao longo de toda a história.” (…) “Os problemas começam quando procuramos conceituar esse processo atribuindo-lhe uma existência tangível.”

“*O neologismo ‘agentividade’, que deriva da palavra inglesa ‘agency‘, cada vez mais difundido nos domínios da filosofia, das ciências sociais e da antropologia, designa a capacidade, ou o poder,  de um indivíduo de influenciar os outros e o mundo (N. da Edição Francesa).” (MATHIEU, R e SINGER, W., p. 209 e 210).

Segundo o documentário Heal, podemos perceber a doença como um desequilíbrio propiciado pelos excessos mentais que irão se refletir em descompensações corporais.

O estresse agudo, por exemplo, atua com o aumento da acidez provocando inflamação (fogo) e destruindo os órgãos do corpo. Tal desequilíbrio também pode se manifestar por meio de um “congelamento” de uma percepção/interpretação: a chamada “metáfora incompleta” de uma experiência passada que nos leva a repetir comportamentos ao longo da vida em busca de sentidos.

Essa repetição inconsciente aparece sob forma de sintoma (na visão da psicanálise) e também emerge no cotidiano sob forma de “piloto automático” (hábitos que se tornaram tão automáticos que são realizados sem a conexão com a consciência).

Estar sob o domínio do inconsciente conduz o sujeito a uma não responsabilização e, aparentemente, torna sua vida mais leve. Desse modo, a “culpa” pelo seu sofrimento aparece sempre no outro, ou na falta de tempo, ou nas desculpas que ouvimos (a famosa “correria”). No entanto, mesmo nomeando esses “culpados”, os problemas não se resolvem; pelo contrário, proliferam-se debaixo do tapete da mente e do corpo, aparecendo sob forma de doenças.

Convém observar que as doenças manifestam os pontos de vulnerabilidade do indivíduo. Nesse âmbito, ela acessa os medos e fragilidades mais íntimos, provocando medo e vergonha. Com isso, há a tendência ao isolamento social ou à manutenção de relacionamentos tóxicos.

 

Doença como abertura e gratidão

“Há uma mente entre o ambiente e minhas células.”

Heal – o poder da mente

 

Nossa tendência é ignorar o potencial de cura dos corpos e mentes frente às doenças. A medicina integrativa nos permitiu reconhecer novamente a conexão entre corpo e mente, e a importância de ver ambos como aliados para a cura.

Diante de um diagnóstico de uma doença grave, é comum vivenciarmos o luto de um corpo saudável. Luto aqui enquanto elaboração de uma perda. No entanto, após a fase de aceitação, é importante viver a atitude de não se sentir vítima daquela doença, e poder até se perguntar: o que essa doença está querendo me mostrar?

Por exemplo, se o indivíduo mudar sua percepção do ambiente, alterará também sua atividade genética. Isso envolve, por exemplo, reconsiderar a visão que tem sobre os médicos e sobre os medicamentos – tirando-os da posição de idolatrias ou de obstáculos à cura – bem como de si mesmo – ao desenvolver uma postura de abertura por meio da gratidão às suas tentativas no processo de cura, ativa-se a conexão com a química cerebral para a saúde mental.

 

Meditação: quebrar aspectos doentios para conectar-se à saúde

Apesar de a pós-modernidade ter nos proporcionado condições de conforto, o nível de estresse com que convivemos hoje nos aproxima de épocas em que vivíamos puramente pela sobrevivência.

A meditação, ao atuar sobre o estresse, permite-nos a quebra do piloto automático e dos sintomas estabelecidos, ao mesmo tempo em que nos traz a consciência do momento. Com isso, elimina a necessidade de “viver pela mera sobrevivência” e nos apresenta um espaço de reflexão consciente durante a ação.

O uso adequado da mente proporciona bem-estar e saúde mental. A mente consciente e criativa abre-se para a conexão pelo sentido trazido pela experiência genuína do estar presente. Assim, novas crenças ocupam o lugar de algumas “metáforas incompletas” mal-resolvidas, assim como novas conexões de ordem química se estabelecem.

Mentes presentes e conscientes, corpos cuidados. Pode-se então encontrar caminhos de cura.

 

Referências:

FRINDEL, J. Documentário: “O médico indiano”. EUA, 2018.

GORES, K. Documentário: “Heal: O Poder Da Mente”

MATHIEU, R e SINGER, W. Cérebro e meditação: diálogos entre budismo e a neurociência. São Paulo: Alaúde Editorial, 2018.

 

Sigam-me,

 

Cristina Monteiro – Psicóloga (PUC-SP), Psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae) e Psicanalista. Atende na clínica com psicoterapia (enfoque psicanalítico) e coaching em resiliência (controle do estresse) – consultório em Pinheiros (São Paulo). Ministra palestras e treinamentos comportamentais in company pela sua empresa Ponto de Diálogo e Reflexões. Escreve semanalmente neste blog. Acompanhe.

Contatem-me: contato@cristinamonteiro.com.br

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