Depressão e o sentido da vida

“Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido, se não tocamos o coração das pessoas.” Cora Coralina

A depressão, antigamente pouco falada e compreendida, hoje já está entre uma das principais doenças que atingem a maioria da população mundial. Poucos sabem definir o que é a depressão: na maioria das vezes, está associada à tristeza, melancolia e desânimo, mas ela pode vir disfarçada de bom humor e até de raiva intensa e, por isso, tal doença nem sempre é facilmente reconhecida.

 

Ser indivíduo na sociedade atual

Vivemos tempos calamitosos. Muitos tabus caíram por terra e muitos outros surgiram fortemente. Hoje, parece que todos podem falar sobre tudo: opinar livremente, buscar informações a qualquer hora, em qualquer lugar. Mas, contraditoriamente, tudo fica registrado, pode ser fotografado e filmado, toda busca aleatória leva-nos a sermos perseguidos nas redes sociais por aquilo que buscamos, e nossa opinião, tão livre, pode ser rigidamente contestada. Pois é, nossa liberdade atualmente é mais do que relativa.

Somado a essa instabilidade e incerteza que caracterizam nosso cenário, temos o imperativo da beleza e da felicidade a todo custo. E, nesse contexto, não há espaço para elaborar a dor e o sofrimento, para considerar que eles fazem parte da nossa vida, que é preciso integrá-los de modo sábio à nossa história.

 

Depressão: precisamos falar sobre essa questão

“Atualmente, a depressão se apresenta como uma patologia que atinge todos os níveis sociais, tornando-se assim uma prioridade para novos estudos na busca de tratamentos que proporcionem ao indivíduo uma maior compreensão dessa doença. Segunda a Organização Mundial de Saúde (2006) estima-se que cerca de 15% a 20% da população mundial já sofreu ou teve algum sintoma de depressão, o que a torna cada dia mais presente no diagnóstico das pessoas.” (BARTH & OLIVEIRA).

Depressão é uma doença mental cheia de estigmas em nossa sociedade. Já ouvi dizer que é “doença de rico”, que quem precisa vai trabalhar e não perde tempo com isso. Que é gente que não tem Deus no coração. Ou mesmo que não se esforça, que quer tudo fácil.

Falar o termo “doença mental” é algo preconceituoso para muitos. Somos todos doentes mentais, já dizia Buda. Somos doentes mentais pois não conhecemos o funcionamento da nossa mente e deixamos que ela siga seu curso sem que cultivemos nela aquilo que verdadeiramente queremos. Nossa mente é como um macaquinho pulando de galho em galho. E lá vamos nós atrás dela, acreditando que ela sempre diz a verdade.

Primeiramente, quem fez meu curso de mindfulness vai se lembrar: “nós não somos a nossa mente”. Nós temos um corpo e uma mente e, por não sermos a nossa mente, podemos ser seu observador. Ao conseguirmos ocupar o lugar de “observadores de nossas mentes”, deixamos de ser passivos e passamos a ter um certo controle mental.

Em segundo lugar, não temos apenas uma mente. Temos várias. E precisamos estar atentos para reconhecer qual mente (padrão mental) está se manifestando naquele momento. Ao reconhecer, podemos apenas aceitá-lo e deixá-lo ir embora. Não é preciso, e nem devemos, segui-lo, pois perdemos o controle de nós mesmos nesse processo.

Em terceiro lugar, é preciso refletirmos sobre a importância de cuidar do nosso estado mental e psicológico. É comum ouvirmos: “isso é psicológico”, como se fosse fácil e simples de lidar. Pelo contrário. Se é psicológico envolve sistemas que não dominamos apenas com a consciência. Já dizia Freud, que, ao descobrir o inconsciente, o homem teve que reconhecer que não era dono nem de si mesmo.

E, por fim, a depressão precisa ser reconhecida e respeitada como uma doença mental que precisa ser tratada. Ela é muito mais poderosa do que se imagina e é responsável por altos índices de suicídio: “Estudos comprovaram que a cada 2 mulheres, apenas 1 homem sofre de depressão, sendo que 40% a 60% dos casos desta tem relação com o suicídio, apesar que os homens depressivos morrem 4 vezes mais por suicídio do que as mulheres, porém estas cometem mais tentativas (SANTA LÚCIA, 2006, apud BARTH & OLIVEIRA).

 

O funcionamento da doença mental

Segundo Barnard (2009), “a complexidade de um transtorno mental como a depressão é tal que envolve uma interconexão entre os níveis neurais, mentais e interpessoais”. De acordo com seus estudos, em estados depressivos com padrões de pensamento ruminativos e evitativos, nossa mente entra num loop semelhante aos sistemas de computadores e fica aprisionada não apenas em pensamentos e sentimentos, mas também abrange algo maior e mais complexo, com conteúdos latentes e pouco acessíveis, como num buraco negro mental.

Essa questão do loop aparece também quando temos situações que nos fazem sentir alto sentimento de culpa, tal como expliquei num post anterior.

Devido a tal complexidade, é preciso ir além de visões simplistas ou mesmo singulares. Devemos buscar um olhar holístico e integrado para quem sofre de depressão e outras doenças mentais graves.

 

A doença mental não é um bicho-de-sete-cabeças

Atualmente, urge a necessidade de profissionais da saúde acudirem as doenças mentais que estão pipocando nas universidades, empresas e escolas. Ambientes antes vistos como saudáveis, hoje já denunciam a doença social que se alastra a cada dia.

É preciso compreender, por exemplo, que apesar de estarmos num momento de tantas oportunidades e possibilidades de escolha, a doença mental nos impinge a uma rigidez e a uma ausência de alternativas, tanto devido ao seu caráter condicional (de doença), quanto à questão social e à falta de empatia características que estamos vivendo. Assim, tais pessoas sentem-se “sem lugar”, sem possibilidade de expressão e aceitação, enclausuram-se em seus redemoinhos internos e são potenciais suicidas.

A barreira entre a saúde e a doença mental é muito íngreme. Somos todos vulneráveis. É preciso estar atento a nós e àqueles que nos rodeiam, com menos crítica e lições moralistas, e com olhares e ouvidos reais para perceber que ninguém está apenas querendo chamar a atenção. É preciso ver vida enquanto há vida.

 

Referências

BARNARD, P.J. Depression and attention to two kinds of meaning: A cognitive

Perspective. Psychoanalytic Psychotherapy, V. 23, No. 3, September 2009, 248–262.

 

 

BARTH, P.O. & OLIVEIRA, S.M. DEPRESSÃO: UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE O TEMA. Revista de Enfermagem. p. 107-114.

 

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Cristina Monteiro – Psicóloga, Psicopedagoga, Coach, Palestrante, Psicanalista. Atende na Clínica com Psicoterapia (enfoque psicanalítico) e Coaching em Resiliência (controle do estresse). Ministra palestras e treinamentos comportamentais em nome da sua empresa (Ponto de Palestras e Treinamentos). Escreve semanalmente neste blog. Acompanhe.

Contate-me: contato@cristinamonteiro.com.br

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