Felicidade não se consome

Assisti ontem a uma palestra muito interessante intitulada “A tirania da Felicidade e o Mundo do Trabalho – O Desafio da Mudança”, do filósofo Luiz Felipe Pondé, no Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo. Digo “interessante” não porque saí mais feliz e leve, pelo contrário, porque ela trouxe, junto a dados de realidade, o desafio de pensar o hoje e o amanhã que temos para viver.

Vou passar aqui um pouco da minha visão sobre os ensinamentos transmitidos.

 

Cenário da “tirania da felicidade”

O cenário abrangido foi a “tirania da felicidade” que nos coloca a pensar na ideia de felicidade hoje enquanto algo a ser reduzido à satisfação no trabalho, à produtividade e ao consumo (e consumo aqui vai muito além de objetos e serviços, estendendo-se às relações e à noção de humanidade). Junto ao consumo, a falta de paciência, tolerância, respeito, afetos, e o descarte generalizado (do outro, de si e da vida). Aí só resta o que dá prazer e não dá muito trabalho, tais como sexo e animais de estimação, tudo a um clique, nos aplicativos e em cada esquina.

E aqui esbarramos na “infantilização social”, na qual se escolhe ficar só com o lado bom das situações e não nos ajuda a pensar e lidar com a complexidade das questões atuais e, menos ainda, nos possibilita integrar aspectos nossos, como o sofrimento. E, assim, a sociedade fica repleta de jovens e adultos desintegrados e insaciáveis.

É preciso enfrentar o paradigma motivacional. Como disse certa vez outro filósofo, Karnal, algo do tipo: parem de postar fotos felizes no Facebook. Parem de dizer que são felizes, realizados e plenos o tempo todo. Além de ser uma mentira, isso aumenta a ideia de que quem não é feliz, está fazendo algo muito errado na vida, precisa se engrenar ainda mais na máquina do fazer, produzir, consumir e postar.

 

O impacto das redes sociais

Pondé ressaltou a questão de como as redes sociais estão produzindo um aumento da ansiedade nos relacionamentos, além de conflitos político-sociais que serão insustentáveis. Nos relacionamentos, adolescentes, jovens e adultos acabam se resolvendo por meio de psicoterapia e medicalização. Já na questão política, a democracia fica cada vez mais difícil, já que o empoderamento social provoca uma onda de protestos e emergências que não cabe mais a ideia de uma organização centralizadora.

A ideia de “viver para o trabalho” entra para muitos como uma espécie de “garantia”: é como se o trabalho fosse mais seguro trabalhar duro do que investir na construção sólida de vínculos afetivos. E aí eu entro com a questão da resiliência. Relembrando aqui os quatro pilares da resiliência para quem me acompanha: eu comigo, eu com o outro, eu com o meio e eu com a vida. Com esse modo de pensar, o pilar fica apenas no “eu comigo”, bem frágil, que não se sustenta pois não tem o apoio do outro (não há empatia, tolerância), não tem sentido construído socialmente (o social está disruptivo) e não tem sentido maior de vida (tudo isso para quê?).

 

O que pude concluir e refletir

A conclusão que me autorizo é de que a ideia de felicidade que nos é vendida em frases lindas de autoajuda e outras maneiras encontradas de dizer que “tudo só depende de você” não deve ser sustentada e sim criticada. É preciso rever os pilares que sustentam as nossas maneiras de ser resilientes – eu, outro, meio e vida.

É válido repensar a vida na sua pluralidade, na simplicidade das pequenas coisas do cotidiano, na importância de uma rotina estruturada, no valor do que falamos e fazemos nas relações, no não negligenciar a dor alheia, não ignorar palavras fortes que vêm com um sorriso perverso ou atitudes de admiração a assassinos. São nessas pequenas atitudes que precisamos agir e, apesar de tudo o que estamos presenciando, não desistir da humanidade.

Como diz uma pessoa muito especial: “É só isso e tudo isso que podemos fazer por nós, pelos outros, por todos”.

 

Sigam-me,

 

Cristina Monteiro – Psicóloga (PUC-SP), Psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae) e Psicanalista. Atende na clínica com psicoterapia (enfoque psicanalítico) e coaching em resiliência (controle do estresse) – consultório em Pinheiros (São Paulo). Ministra palestras e treinamentos comportamentais in company pela sua empresa Ponto de Diálogo e Reflexões. Escreve semanalmente neste blog. Acompanhe.

Contatem-me: contato@cristinamonteiro.com.br

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