Você tem fome de quê?

“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”

Titãs

Posso arriscar dizer que o mais interessante da vida é poder reconhecer que tipo de fome é a nossa. Afinal, eu vivo para quê? Nenhum ser humano vive apenas daquilo que parecia suprir a “qualquer um”. Se qualquer alimento alimentasse qualquer um, não existiria tanta variedade de escolhas… Bem como não haveria tanta intolerância como vemos hoje em dia.

 

E então eu pergunto: quais são nossos limites? O que nos sustenta e o que nos sufoca?

Quando alguém procura um analista, ele(a) está buscando, muitas vezes, entender por quê aquilo que procura incessantemente com a certeza de que mataria a sua fome, na verdade, não sacia. E porquê não sacia, sufoca.

“Estou com fome. Quanto mais eu como, menos satisfeito fico”. Que contraditório, diriam alguns ingenuamente. Seria tão simples se tudo fosse resolvido da forma “pão-pão, queijo-queijo”, mas não é assim, porque o ser humano é muito mais complexo do que isso.

 

E o que fazemos com nossa fome?

De um jeito muito comum, procuramos algo que nos apeteça. Nomeamos a “causa” e vamos atrás dela. Realizamos nosso suposto desejo, saciamo-nos parcialmente e, em seguida, percebemos que continuamos vazios. Angustiante? Sim. Ainda bem. Quem preenche o vazio com qualquer coisa continua no vazio, só que a angústia também aumenta. Aí a gente culpa o alimento que não alimenta. Mas o problema é que não sabemos qual alimento estamos mesmo buscando. Não é à toa que estamos ali na sala do analista.

 

E então? Eu tenho fome realmente de que?

É preciso falar muito da nossa fome nesse ambiente analítico, em que teremos olhos e ouvidos que servirão como uma concha à nossa dor. Assim poderemos reconhecer que, mesmo falando exaustivamente, a real causa da nossa busca incessante é da ordem do inominável (sem nome), reconhecendo, então, o quanto estivemos tampando a nossa fome com a fonte errada. É um alívio saber que com o tempo, conseguiremos dar nome à nossa fome.

 

Um pouco de Lacan como base para o verdadeiro encontro: qual a diferença entre o “oco” e o “vazio”?

O analista lacaniano estava bem ali, olhando o todo, mas caminhando na contramão do nosso processo, ajudando-nos a encontrar o nosso desejo. Como? Vivendo na ação a possibilidade de auxílio até conseguirmos transformar a demanda (procura por “comida”) em desejo (o que de fato me move, o nome da minha fome). Ali, ocupa e sustenta um lugar “oco”, impulsionando-nos a sair daquele nosso preenchimento vazio que nos era tão comum e familiar.

Paramos de girar em círculo para encontrarmo-nos, enfim, com o nosso desejo. Agora eu sei o nome da minha fome.

E você? Tem fome de quê?

 

Referência:

LACAN, Jacques (1967). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da escola. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, pp. 248-264.

 

Grande abraço,

 

Cristina Monteiro – Psicóloga, Psicopedagoga, Coach (Resiliência) e Instrutora de Mindfulness. Escritora (crônicas literárias, artigos acadêmicos e profissionais). Atende na Clínica com Psicoterapia (enfoque psicanalítico) e Coaching em Resiliência (controle do estresse). Ministra palestras e treinamentos comportamentais em nome da sua empresa (Ponto de Palestras e Treinamentos). Escreve semanalmente neste blog. Acompanhe.

Contate-me: contato@cristinamonteiro.com.br

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