Verdade: será que podemos ver?

Dogville e a busca pela Verdade

 

Dogville atualmente é uma adaptação teatral do filme de Lars Von Trier que aborda a história da busca das pessoas pela “Verdade”. E a verdade, no campo social, vem sempre acompanhada pelas ideias de moral e pela justiça.

A busca pela verdade leva as pessoas a se revelarem da maneira mais nua e crua possível. Com a mente cheia de dúvidas e medos, criam-se ambientes sombrios e bodes expiatórios na tentativa de buscar a proteção.

A personagem principal, Grace (Mel Lisboa), busca incessantemente a verdade na cidade de Dogville, com a qual acaba se deparando da pior maneira possível. Todos ali também buscavam. E qual verdade ali se revela?

 

A “verdade” é aquilo que acreditamos e validamos como tal

A fala de um dos personagens (Fábio Assunção) no início da história se concretiza ao final: “Você não vai encontrar aqui nada de diferente dos outros lugares.”

Se num primeiro momento, junto com um integrante do vilarejo, Grace foi aceita pela maioria dos habitantes de Dogville, num segundo momento, todos quiseram encontrar motivos para culpabilizá-la e desconfiar de sua bondade.

Assim como puderam confiar nela cegamente, pelos seus comportamentos e boa impressão, os avisos negativos sobre sua imagem na cidade levaram todos a mudar de ideia. Os medos e as dúvidas que ninguém queria lidar tinham agora um foco para depositar toda a dor de uma cidade sem cor, e o ralo chamava-se Grace.

 

A verdade que Grace não podia ver

Após muito mal entendido e sofrimento, Grace se deparou com aquilo do que mais fugia: a arrogância e o abuso de autoridade que via em seu pai.

Ser arrogante é arrogar/trazer para si características que mantém a pessoa numa postura de superioridade e ataque/defesa. Isso faz com que ela escolha um modo de vida em que possa estar “separada” da sociedade, numa realidade à parte.

Tal visão distorce o que há de mais precioso na vida: a conexão real, a troca fluida. Estar apartado convoca a ideia de vítimas e agressores para além do real (do que existe de fato no social), tirando delas a responsabilidade por arcar com suas vidas de um modo mais objetivo, porque aqui o que se reconhecem e se evidenciam são egos distorcidos. E então o que as pessoas não conseguem ver não é a realidade em si, mas o próprio ego.

 

Matar a si ou matar todos – conexão com Édipo Rei

Essa história remete-nos ao mito do Édipo Rei. Édipo, ao saber do seu destino pela esfinge – matar o pai e casar-se com a mãe – foge e, no caminho, sem saber, defronta-se exatamente com este fardo. Ao reconhecer-se nessa emboscada, cega a si mesmo.

Por que Édipo se cega? Por não querer enxergar o que havia feito e reconhecer-se vítima de si mesmo, de seus impulsos, de sua fuga, da inevitabilidade de reconhecer a maldade que o ser humano carrega.

 

Ódio e Desejo: dois lados da mesma moeda

Ao final, no encontro com o pai, este nomeia a arrogância que Grace também tinha: ela arrogava para si uma bondade esplêndida e perdoava totalmente os demais por seus atos. Tal visão sobre si e tal atitude de perdão mostrou-lhe o quanto ela estava alienada e à parte da sociedade e de si mesma. Ele também ressaltou a importância da responsabilidade que as pessoas têm sobre seus atos e de arcar com as consequências deles.

A trama da personagem revelou o quanto ela ficou nua e desprotegida socialmente por não ter integrado seu lado sombrio e por tê-lo negado tanto que ao vê-lo em seu pai, acreditou que fugindo dele, ela encontraria um mundo de bondade.

A partir de seu pai, Grace pôde se ver, bem como reconhecer que não era vítima de seus comportamentos e de sua vida, reconhecendo-se causa de seus próprios males. Deste modo, ela decidiu tornar toda a cidade vítima de seu ódio. Assim, estaria matando o ódio tão mascarado dentro de si. Aquela verdade da qual ela tanto fugiu, estava ali escancarada, levando-a a fazer justiça com as próprias mãos.

É importante reconhecer que a maldade e a bondade estão dentro de todos nós e precisam ser integradas.

 

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Cristina Monteiro – Psicóloga (PUC-SP), Psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae) e Psicanalista. Atende na clínica com psicoterapia (enfoque psicanalítico) e coaching em resiliência (controle do estresse) – consultório em Pinheiros (São Paulo). Ministra palestras e treinamentos comportamentais in company pela sua empresa Ponto de Diálogo e Reflexões. Escreve semanalmente neste blog. Acompanhe.

Contatem-me: contato@cristinamonteiro.com.br

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