A falta é a fome da vida

Costumo notar que toda situação tem sempre dois aspectos: o aspecto subjetivo e o aspecto objetivo. Numa análise social, as pessoas costumam averiguar apenas questões de ordem objetiva. Mas, a meu ver, sempre fica faltando uma parte muito importante, que não se explica apenas pelos fatos em si. Poderia arriscar afirmar que é algo além, ou mesmo anterior, algo de base que coordena todo o processo antes mesmo dele existir.

Buda Shakyamuni dizia que antes de qualquer coisa existir na realidade concreta (objetiva) ela já havia existido na mente de alguém (subjetiva). A Psicanálise também concorda com essa versão e valoriza a parte subjetiva que nos dá a condição de sujeito.

Sendo assim, nada pode ser totalmente compreendido apenas pelos fatos observáveis, pela realidade objetiva, nem mesmo as saídas e possibilidades podem ser todas encontradas aí. E é disso que irei tratar a seguir.

 

Breve análise do filme: “O menino que descobriu o vento”

No filme “O menino que descobriu o vento” (Netflix), é possível perceber, a partir de uma realidade de miséria e escassez, como um sonho pôde se tornar realidade. Essa “concretização” ou “realização” só acontece quando o sujeito é capaz de suportar a ideia de tornar o sonho real, junto com todos os desafios e frustrações que aí se encontram.

Numa visão psicanalítica, para conseguir concretizar/realizar sonhos é preciso estar na postura do sujeito desejante, aquele que deseja e suporta seu próprio ato de desejar. Oposto a essa situação acontece quando se ocupa a postura de vítima, na qual o sujeito ainda está no lugar de objeto, misturado à realidade, e pouco consegue se ver separado dela.

No filme em questão, baseado em uma história real, o personagem principal, William Kamkwamba, vive em uma vila bastante pobre no Malawi, num momento em que acontecimentos políticos agravam ainda mais a situação da população.

Se pensarmos de forma objetiva, todas as pessoas daquele lugar eram claramente vítimas daquela situação. Desse modo, não era possível sonhar, apenas rezar e se esforçar muito com o pouco que tinham em mãos.

No entanto, para William, era possível olhar para além daquilo que se apresentava. Podemos até considerar como uma metáfora a cena no início do filme em que todos olhavam para frente ou para o chão, enquanto ele lançava seu olhar para o céu, observando, com curiosidade, o movimento do vento.

William olhava para as possibilidades e isso o fez encontrar livros e pessoas que o ajudassem em seu propósito. Além de reconhecer, em objetos velhos e quebrados no lixo, oportunidades para a construção de um moinho de vento.

Enquanto isso, seu pai não mais enxergava nem mesmo a sua própria vida. Quando sua esposa lhe questionou: “O que mais iremos perder?” – tal dor despertou nele um buraco maior até do que a fome.

A culpa possibilitou a abertura de um espaço psíquico. Ao ouvir o reconhecimento da esposa e do filho pelos seus feitos e ao reconhecer-se de certa forma culpado, ele pôde finalmente se abrir para aceitar a ideia que o filho insistia em lhe apresentar.

Conforme a Psicanálise nos traz: é só no reconhecimento da falta que é possível abrir-se para a fome de aprender: permitiu-se sair da postura de objeto (vítima daquela condição) para a postura de sujeito desejante (tentar sonhar e realizar).

Ambos agora ocupavam o lugar de sujeitos desejantes e podiam enfim se ver, se ouvir e tentar um novo caminho, já que tiveram com a possibilidade de apropriar-se de si mesmos.

 

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Cristina Monteiro – Psicóloga (PUC-SP), Psicopedagoga (Instituto Sedes Sapientiae) e Psicanalista. Atende na clínica com psicoterapia (enfoque psicanalítico) e coaching em resiliência (controle do estresse) – consultório em Pinheiros (São Paulo). Ministra palestras e treinamentos comportamentais in company pela sua empresa Ponto de Diálogo e Reflexões. Escreve semanalmente neste blog. Acompanhe.

Contatem-me: contato@cristinamonteiro.com.br

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